Nestes dias de domingo, primeiro de novembro e segunda-feira, dois de novembro, assinalamos no calendário duas datas importantes para a fé cristã. Elas sempre trazem sugestões significativas para a trajetória de fé dos discípulos de Jesus Cristo.
Ao propor a Solenidade de Todos os Santos a Igreja lembra o caminho sugerido para os homens e mulheres de fé, o caminho da santidade, ou caminho das bem-aventuranças, como sugere o texto proposto para este domingo (Mt 5,1-12a). A língua hebraica define santo como kadosh. Significa separado, distinto ou dedicado a um propósito especial. Verdadeiramente a santidade carrega um propósito especial. O povo de Deus tinha este princípio como horizonte. O livro do Levítico, livro da lei propunha “ser santo como Deus era santo” (cf. Lv 19,2). Era o caminho futuro previsto e único para aqueles que queriam ser fiéis a Deus, o propósito especial para aquele povo que, acompanhado pelo Deus libertador, deixou a escravidão no Egito (Ex 3,7-10) para ser um povo livre e santo. O caminho da santidade era uma resposta a um Deus que viu, desceu e libertou aquele povo.
A língua latina define a expressão santo como sanctus, que significa “consagrado”, ou “tornado sagrado”, em vista das coisas de Deus. Neste caso o santo é alguém que se aproximou da vontade, das coisas de Deus, sem perder a sua identidade. É uma opção. Fez do cumprimento dessa vontade o sentido a sua vida. A significação de santo fundada na língua hebraica e língua latina propõe a relação profunda entre a vontade humana e a vontade divina. A santidade então implica na conjunção das duas vontades no caminho humano. O ser humano, pela sua fé, dispõe-se a fazer a vontade de Deus e compreende que neste ato está a sua realização pessoal.
Quanto Jesus propõe a s bem-aventuranças sugere este mesmo princípio. Ele tinha a sua frente como ouvintes os discípulos, a multidão e algumas pessoas que começavam a se interessar pela sua proposta. Era praticamente o início da sua jornada missionária na Palestina. E o Nazareno sugere este caminho, ser bem-aventurado, fazer a vontade do Pai Celeste. A ação dos bem-aventurados tem presente os valores do Reino de Deus como grande critério de orientação apesar das dificuldade e perseguições.
A proposição dos santos quanto à norma de vida tem presente também o testemunho e a intercessão. Os homens e mulheres reconhecidos como santos o são pelo testemunho que deixam para os demais cristãos, um testemunho a ser seguido ao longo dos tempos e em diálogo com os tempos. São também intercessores, porque a condição alcançada permite de forma especial apresentar a Deus as necessidades dos que vivem na terra (Ap 7,13-17).
Cumprir a missão e chegar ao fim justificado
A Igreja sugere a memória de finados trazendo presente à memória afetiva e orante àquelas pessoas que passaram pelas nossas vidas na perspectiva terrena e continuam a sua jornada na eternidade. Somos vocacionados à vida eterna. Jesus afirmou aos discípulos na cidade de Jerusalém que partiria e prepararia um lugar para eles para que todos pudessem estar juntos na vida eterna (Jo 14,1-6). A vida dos que creem em Jesus não se esgota aqui. Ele mesmo aponta para outra possibilidade, a vida eterna. Cabe acolher a proposta do caminho para a eternidade com humildade, sabendo das nossas limitações enquanto pessoas físicas e da finitude, mas também do chamado que o Pai nos faz ao convívio na eternidade. Como afirma o apóstolo Paulo: se morremos em Cristo, cremos que também viveremos com ele (Rm 6,9). A fé afirma que a morte não tem poder sobre os que acreditam.
A jornada terrena, trilhada sob a ótica da fé, convida a um sentido. Nesta perceptiva compreende-se o termo defunto. Origina-se do latim defunctus. A conjugação deste verbo no particípio passado defungi, significa cumprir, realizar, executar ou terminar. Então o defunto é a pessoa que cumpriu a missão ou terminou algo ao qual foi determinado fazer. O texto do Evangelho proposto para o dia 2 de novembro (Lc 12,35-40) lembra da necessidade de estar preparado para quando chegar a hora. O estar preparado significa consciente de estar fazendo o que compete, a partir da vida recebida e da vida entregue ao final da jornada.
Compreende-se também uma outra expressão para o dia, finados. A palavra finado vem do latim finātus, particípio passado do verbo fināre: acabar, terminar ou concluir. Quando chegar a hora convém estar preparado, consciente de que cumpriu a missão. Estar pronto para o outro passo, a vida eterna porque a vida decorrida até então foi significativa de preparação para este outro passo. Não existe medo ou insegurança, mas a serenidade da possibilidade de avançar.
No dia 2 de novembro vamos ao cemitério com a boa saudade homenagear e rezar com aqueles que já cumpriram a sua missão. E vamos com uma serena esperança, porque aquele caminho por eles percorrido será o nosso caminho quando tivermos cumprido a nossa missão.
Pe. Ari Antonio dos Reis











