Dono de uma simplicidade ímpar, Padre Paulo Augusto Farina fala da criação da Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo como quem fala de um filho querido.
Escolhido por Dom Cláudio Colling como primeiro diretor da Planalto, acompanhou de perto todo o processo de instalação da emissora, cuidando pessoalmente de todos os encaminhamentos necessários para o efetivo funcionamento da primeira rádio católica da região. Sempre atento às necessidades da empresa e às mudanças tecnológicas, não mediu esforços para garantir que a Rádio Planalto sempre obtivesse equipamentos de ponta e atendesse as necessidades de seus colaboradores. Participou ativamente na compra da primeira unidade móvel e também na construção da sede própria no Bosque Lucas Araújo.
Padre Paulo é natural de Sarandi, nasceu em 24 de junho de 1929. Sua ordenação aconteceu em 08 de dezembro de 1956. No ano seguinte, Dom Cláudio Colling o nomeou como Superintendente da Fundação Lucas Araújo e, posteriormente, como diretor da Fundação Cultural Planalto.
Confira a entrevista:
Somando – Que papel e qual a importância de Dom Cláudio Colling no processo de implantação da rádio? Como era sua relação com ele?
Padre Paulo Farina – A ideia para implantação da rádio veio de um grande desejo de Dom Cláudio Colling em ter uma rádio católica na Diocese. Sabendo das dificuldades e do grande volume de recursos que seriam necessários para a implantação da rádio deu-se início a busca de ajuda financeira junto às paróquias e as capelas. Diante disso uma grande lista de contribuintes se formou possibilitando a aquisição dos equipamentos. Todas as direções da Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo são muito gratas a todos esses anônimos que de certa forma tornaram a Planalto uma realidade na Diocese.
Dom Cláudio foi o responsável por todos os encaminhamentos que possibilitaram a implantação da rádio. Inicialmente ele tinha em mente entregar a condução da emissora aos padres capuchinhos, que na época já possuíam conhecimento na condução de diversos veículos de comunicação. As conversas tomaram outro rumo e acabei sendo convidado para ser o primeiro diretor da Rádio Planalto.
Nosso Bispo foi um grande líder. Ele soube delegar. Dom Cláudio entregava a função e confiava. Ele foi o idealizador da rádio e a viabilizou estrutural e financeiramente, e solicitou a mim que conduzisse todos os trabalhos. Com certeza foi um grande visionário para a sua época.
Somando – Como foi elaborada a primeira programação? E qual a base para a sua constituição?
Padre Paulo Farina – Como eu não possuía conhecimento em programação de rádio tomei a liberdade em pedir ajuda. Neste período meu irmão Saul Farina dirigia a Rádio Universidade (Rádio RU) de Pelotas, que também é uma rádio católica, e em contato com ele e sua equipe se dispusera em nos ajudar. Ele, acompanhado do diretor comercial José Cunha e mais um programador, deslocaram-se para Passo Fundo a fim de elaborar a programação da Rádio Planalto e auxiliar na contratação dos primeiros funcionários. É bem provável que esta programação tenha tido como base aquela já utilizada pela Rádio RU.
Somando – Fale-nos sobre o processo de contratação da primeira equipe.
Padre Paulo Farina – Além de organizar a programação, a equipe da Rádio RU também auxiliou na contratação e preparação do pessoal que passaria a conduzir os trabalhos na Rádio Planalto. O grupo aparentemente parecia ser inexperiente, mas logo demonstrou sua qualificação e surpreendeu a todos. José Ernani de Almeida assumiu a coordenação de programação e soube conduzir com muita qualidade os trabalhos daquele período. Os espaços publicitários sempre estiveram preenchidos, o que garantiu a sustentação financeira da emissora. Chegamos a sofrer questionamentos por parte de alguns padres a respeito do estilo musical levado ao ar pela emissora, o que com bons argumentos foram superados.
Somando – Houve muita expectativa sobre as fiscalizações para instalação da rádio e também após a sua implantação? Como foram enfrentadas e superadas?
Padre Paulo Farina – A fiscalização foi realmente muito intensa. Como vivíamos no período da ditadura militar tínhamos que tomar todas as precauções para que nada de errado fosse feito ou dito. Os fiscais quando nos visitavam ouviam atentamente todas as gravações da censura e faziam seus apontamentos. Mas como sempre fomos muito zelosos em nossas atividades nunca tivemos problemas.
Somando – Como o senhor define o fato de conduzir uma rádio da Igreja Católica diante de uma sociedade multicultural?
Padre Paulo Farina – Eu chego a imaginar que a intenção era atingir o público católico com aquela preocupação de manter o espírito religioso dos cristãos e até conquistar cada vez mais fiéis. A partir da implantação da programação percebemos que era possível atingir os cristãos e também fazer um trabalho social como uma rádio normal. E é por isso que ouvimos tantos elogios para a Rádio Planalto, por abordar todos os assuntos sempre com muita seriedade. Era comum ouvirmos a comparação “A Planalto é a Guaíba do interior”. E até hoje nada impede que o Bispo utilize os microfones da emissora para transmitir sua mensagem, assim como os padres de toda a Arquidiocese. A parte espiritual sempre funcionou muito bem sem interferir nas questões comerciais.
Somando – Durante a sua gestão a Fundação Cultural Planalto deu grandes passos: a construção da sede própria e a implantação da Rádio Planalto FM. Conte-nos sobre esse processo.
Padre Paulo Farina – Após o período de implantação da Rádio Planalto AM conseguimos obter uma considerável sobra de recursos, e por entender que uma Fundação deve possuir patrimônio, compramos nove terrenos no Bairro Bosque Lucas Araújo. Inicialmente demos início a construção de uma casa com o intuito de colocá-la para locação. A casa estava sendo finalizada e no mesmo período, na capital, as rádios e as TVs foram transferidas para o Morro Santa Tereza. Então, como estávamos em prédio alugado da Cúria, resolvemos também transferir a Rádio Planalto para o bosque. O local, muito amplo, também facilitava o estacionamento para os funcionários, clientes e entrevistados.
O novo prédio também foi estruturado para receber o estúdio da Rádio Planalto FM. Com a implantação da nova emissora tentamos, no início, seguir a Guaíba com uma programação diversificada levando ao ar somente música ambiente (clássicas e eruditas). A programação foi bem aceita pelos profissionais liberais, mas não foi bem assimilada pela sociedade em geral, o que mais tarde resultou em uma programação totalmente voltada para a cultura gaúcha.
Somando – Existe algum fato marcante que possa ser compartilhado com os nossos leitores?
Padre Paulo Farina – Quando a rádio passou a operar em 730 ficamos praticamente ao lado da frequência da Guaíba, o que praticamente inviabilizou que a emissora fosse sintonizada na região Norte do Estado. Sofremos naquele período uma forte cobrança da população que nos culpava pelo fato. Houve até uma mobilização de um grupo da cidade que se organizou de forma a exigir que a Rádio Planalto abrisse espaço para a Guaíba. Com muita conversa amenizamos os ânimos e tudo foi se resolvendo. Foi um período muito angustiante. A Planalto era sintonizada até o município de Lajeado que servia como uma barreira impedindo que as ondas avançassem para lá e também impedia que a Guaíba avançasse para o Norte.
Somando – Qual foi a maior dificuldade enfrentada durante a sua gestão?
Padre Paulo Farina – Tanto para mim quanto para a própria empresa o surgimento de novos canais de rádio e também de um canal de TV, no início da década de 1980, resultaram em um forte impacto na área comercial da Rádio Planalto. Os comerciantes que investiam fortemente em publicidade foram atraídos para a TV, que além da mensagem falada puderam fazer uso de imagens, atraindo a atenção do público consumidor. Diante dessa adversidade, eu que sempre fui muito preocupado com as questões financeiras, entendi que era hora de passar a gestão para um novo grupo. Dom Osvino Both assumiu o cargo de diretor e com o apoio de uma nova equipe conseguiu, aos poucos, reverter a situação. Logo as pessoas identificaram a diferença do rádio e a importância desse veículo em suas vidas.
Somando – Ao ser convidado para dirigir a Planalto o senhor já era responsável pela administração da Fundação Lucas Araújo. Como conseguiu se dividir entre a condução de duas entidades?
Padre Paulo Farina – A Fundação Lucas Araújo já estava organizada e com uma equipe muito qualificada, com profissionais específicos para cada função, e da mesma forma na Rádio Planalto os funcionários estavam comprometidos com o projeto, o que facilitava o gerenciamento das duas entidades. Quando enfrentei a minha maior adversidade, precisei optar pela administração de somente uma das entidades e entendi que deveria permanecer na Fundação Lucas Araújo.
Somando – O senhor dedica diariamente uma mensagem aos ouvintes das Rádios Planalto AM e FM. Como surgiu essa ideia e há quanto tempo o senhor desenvolve essa prática?
Padre Paulo Farina – Quando a programação foi pensada já foram inseridas diversas mensagens ao longo do dia. A oração do Pai Nosso e a Ave Maria também foram implantadas nesse período. Como forma de envolver os diversos grupos que compõem a Igreja Católica, colocamos alguns espaços a disposição deles. No início funcionou muito bem, mas logo em virtude de compromissos pessoais os grupos não corresponderam mais ao compromisso. Como eu já me encontrava na emissora e precisava pensar em mensagens para as homilias dominicais, comecei a gravar as mensagens, prática que exerço até hoje.
Somando – Quarenta e cinco anos depois de colocar a Rádio Planalto no ar, como o senhor avalia a Rádio atualmente?
Padre Paulo Farina – O espírito de família que percebemos na Planalto é um verdadeiro testemunho de que nestes 45 anos a Fundação têm vivido na prática sua missão. Descontando aquele período difícil que a Planalto enfrentou no início dos anos 80, a rádio só cresceu. Foi uma continuação e um crescimento, e neste momento está muito bem organizada. É um orgulho para a Igreja e para a sociedade o que é hoje a Rádio Planalto. E eu me alegro por hoje ainda vivenciar e estar tão próximo dessa empresa da qual tenho grande apreço. Também precisamos lembrar que tudo isso é resultado dos ideais de Dom Cláudio Colling.
Entrevista veiculada na Revista Somando, edição de Abril/2014











