Estamos iniciando as celebrações dominicais do mês de setembro, mês da Bíblia, com a motivação especial de buscar sempre uma maior proximidade com a Sagrada Escritura, que relata a vontade divina em relação à humanidade: uma vontade libertadora e santificadora. A Constituição Dogmática Dei Verbum, promulgada no Concílio Vaticano II, que trata da Revelação Divina, lembra da necessidade da leitura, oração e meditação da Sagrada Escritura. Afirma: “ o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam a sublime ciência de Jesus Cristo (Fil. 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo. Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos” (DV 25).
Este ano, no Brasil, é proposto o estudo do Livro do Profeta Daniel, localizado no segundo século antes de Cristo, durante o domínio grego, e voltado a reacender a esperança daquele povo, dominado pela violência e pela cooptação religiosa e cultural. O lema proposto é significativo: “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). O Reino do Senhor permanece para sempre, e esta certeza alimenta a jornada dos cristãos que se alimentam diariamente da Palavra que brota do amor de Deus. O cristão não tem medo dos reinos humanos, por mais violentos e prepotentes (Dn 14,16) que sejam. Eles são efêmeros e passageiros. O Reino de Deus é pleno, e sua plenitude se dá na oferta da justiça, da felicidade e da vida digna para todos.
A liturgia da Palavra deste 23º Domingo do Tempo Comum convida-nos a mergulhar na responsabilidade da fé professada. A primeira leitura, do Livro do Profeta Ezequiel (Ez 33,7-9), escrita no contexto do Exílio (585-538 a.C.), assinala o compromisso da pessoa que acredita em Deus em corrigir o ímpio, aquele que não acredita em Deus e se rebela contra Ele. O justo há de anunciar a verdade pela sua fé; e a sua fé o convoca a ser responsável pelo seu próximo.
O Evangelho de Mateus (Mt 18,15-20) apresenta-nos o diálogo de Jesus com seus discípulos e a orientação sobre as suas relações. Recordamos que Mateus escreve para as comunidades cristãs do norte da Palestina, que tinham a responsabilidade de agir pela fé, testemunhando a proposta de Jesus, internamente, superando os conflitos próprios da vida comunitária, e externamente, diante dos que resistiam em aderir à fé. Parece-nos que as dificuldades às quais Mateus responde são de índole interna daquelas comunidades.
O texto trata de dois temas: a correção fraterna e a força da união em Jesus Cristo. Na primeira parte do texto (Mt 18,15-17), Jesus lembra aos discípulos a necessidade de corrigir o irmão diante do erro cometido. É um processo aparentemente demorado. Dá-se na esfera pessoal, amplia-se para um grupo maior e chega à comunidade. Não é demorado se busca superar o erro e “ganhar” o irmão. Exige paciência e a capacidade de enfrentar a dificuldade, bem como a capacidade de exercer a misericórdia, como Deus a exerce sempre, para além do legalismo estreito. Vê-se também a responsabilidade da comunidade por cada um dos seus membros.
A segunda parte do Evangelho (Mt 18,18-20) lembra a força da vida comunitária. A afirmação retoma o mandato petrino (Mt 16,18) em outra perspectiva. A alusão “Tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu”, agora, não se dirige a pessoa de Pedro, mas a toda a comunidade dos discípulos. Tem um perfil mais comunitário do que pessoal. E aprofunda este perfil com a afirmação: “Se dois de vós estiverem de acordo sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai”. Reitera a dimensão da comunhão orante do grupo: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles”. Esta comunidade, convidada a exercer a misericórdia, e a rezar em comum, é sinal da presença de Deus.
A força da comunidade se dá pela unidade em torno de uma causa comum plasmada pela fé, pela oração comum e no compromisso com o outro, exercitado a cada dia. Vivamos estas responsabilidades que são componentes da nossa identidade cristã.
Pe. Ari Antonio dos Reis











