O Brasil enfrenta um risco crescente de apagão logístico diante da escassez de motoristas de caminhão. O desinteresse pela profissão, impulsionado por baixos salários, insegurança nas estradas e condições precárias de trabalho, acendeu o sinal de alerta no setor de transportes. Dados da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) apontam que o número de condutores habilitados para veículos pesados caiu mais de 60% na última década — um impacto direto na capacidade de escoamento da produção nacional.
Em 2014, o país contava com cerca de 3,5 milhões de motoristas profissionais. Dez anos depois, esse número encolheu para aproximadamente 1,3 milhão. A queda expressiva revela não apenas a saída de profissionais da atividade, mas também a ausência de renovação na categoria. Hoje, a idade média dos caminhoneiros ativos é de 46 anos.
Transportadoras relatam dificuldade cada vez maior para preencher vagas. Processos seletivos que antes levavam dois meses agora podem se estender por até seis, refletindo a falta de mão de obra qualificada e disponível.
Insegurança e baixa renda afastam novos profissionais
A profissão, historicamente associada à liberdade das estradas, hoje enfrenta obstáculos que afastam principalmente os jovens. O medo constante de roubo de cargas e a carência de pontos de apoio adequados nas rodovias brasileiras são fatores decisivos para o esvaziamento da categoria.
Para o caminhoneiro Carlos Almeida, que herdou a profissão do pai e do avô, o cenário mudou drasticamente nos últimos anos. “Está cada vez mais difícil encontrar quem queira seguir na estrada”, relata.
Além da insegurança, a remuneração não acompanhou o aumento do custo de vida, do diesel e da manutenção dos veículos. A gerente de Recursos Humanos Luciana de Mello destaca que, apesar de ser essencial para o funcionamento da economia, a profissão perdeu atratividade e valorização ao longo do tempo.
Dependência das rodovias expõe vulnerabilidade
A crise de mão de obra evidencia uma fragilidade estrutural da economia brasileira: a forte dependência do transporte rodoviário. Atualmente, cerca de dois terços de toda a carga movimentada no país circulam por estradas.
Sem motoristas suficientes, o impacto pode ser direto no bolso do consumidor. O aumento no valor do frete tende a encarecer produtos nos supermercados, afetar a cadeia industrial e comprometer o abastecimento em diversas regiões.
Segundo Danilo Guedes, diretor da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), a valorização da categoria é urgente. “Sem melhorar a remuneração e as condições de trabalho, não haverá reposição da mão de obra. O país corre o risco de não conseguir escoar sua própria produção”, avalia.
Ferrovias surgem como alternativa estratégica
Especialistas defendem que a solução passa não apenas pela valorização do motorista, mas também pela diversificação da matriz de transportes. O investimento em ferrovias é apontado como alternativa viável para reduzir a sobrecarga do modal rodoviário.
A ampliação da malha ferroviária permitiria o transporte de grandes volumes a longas distâncias com menor custo e maior segurança. Nesse modelo, o caminhão manteria papel estratégico na distribuição regional e na chamada “última milha”, conectando centros de distribuição aos pontos de venda.
Sem mudanças estruturais e políticas públicas voltadas à valorização do setor, o Brasil pode enfrentar não apenas um déficit de profissionais, mas um colapso logístico com reflexos diretos na economia e na vida da população.











