A trajetória de Roberto Andretta se confunde com a própria história de crescimento e transformação de Passo Fundo e da região Norte do Rio Grande do Sul. Natural do interior do município, criado em meio à agricultura familiar, ele construiu sua vida profissional a partir do trabalho duro, da disciplina e de uma visão empreendedora desenvolvida ainda muito cedo. Em entrevista ao programa A Primeira Hora, da Rádio Planalto News, Roberto compartilhou lembranças marcantes da infância, os desafios enfrentados para estudar e os caminhos que o levaram à fundação da JR, hoje uma das empresas mais consolidadas do setor de materiais de construção.
Nascido em São Brás, no interior de Passo Fundo, Roberto é um dos quatro filhos de dona Naíra e seu João Carlos. O empresário costuma brincar que foi o único dos irmãos a nascer “na roça”, em um parto feito com ajuda de parteira, longe de hospital e de qualquer estrutura. A infância foi vivida em uma pequena propriedade rural de cerca de 25 hectares, onde a família se dedicava principalmente ao cultivo de cebola, além de mandioca, batata e outras culturas da agricultura familiar, e à criação de animais.
A realidade era simples e exigente. Não havia energia elétrica, transporte escolar ou facilidades. O trabalho começava cedo e fazia parte da rotina diária. “Minha mãe chegou a fazer três queijos por dia”, recordou Roberto, ao relembrar a produção de leite e a subsistência da família. Pequenos detalhes da época ficaram marcados na memória, como caminhar quase seis quilômetros até a casa da avó apenas para poder experimentar um cubo de gelo com suco, algo raro e especial naquele tempo.
O acesso à educação também foi um desafio constante. Para frequentar a escola, Roberto caminhava longas distâncias, atravessava lavouras, cercas e estradas de chão, enfrentando chuva, frio e calor. Em algumas fases da vida escolar, eram mais de dez quilômetros por dia entre caminhada e transporte precário. Ainda adolescente, viveu um episódio marcante quando uma enchente impediu seu retorno para casa, obrigando-o a passar a noite fora sem conseguir avisar os pais, já que não havia telefone ou comunicação. “Essas experiências criam uma firmeza que fica para a vida toda”, destacou.
Após concluir as séries iniciais no interior, a possibilidade de continuar os estudos só foi possível graças à solidariedade de um professor, Antônio Roberto Grando, que abriu as portas de sua casa para que Roberto pudesse pernoitar na cidade e seguir estudando. A rotina passou a ser ainda mais intensa: trabalhar durante o dia, estudar à noite e enfrentar o deslocamento diário, muitas vezes em condições adversas.
Já no ensino médio, cursado no Colégio Monteiro Lobato, Roberto conciliava estudo noturno com trabalho diurno. Em determinado momento, decidiu comprar uma motocicleta para facilitar o deslocamento, enfrentando a resistência do pai, preocupado com a segurança. Mesmo assim, seguiu em frente. “Teve dias em que eu precisava raspar o gelo da viseira do capacete com as unhas”, contou, ao lembrar das manhãs geladas no interior.
A entrada definitiva no setor da construção civil aconteceu após receber um convite do tio, um dos fundadores do Grupo Andretta, para trabalhar em uma concreteira em Erechim. Na época, Roberto iniciou o curso de Ciências Contábeis na URI e passou a atuar diretamente na operação do negócio. Apesar da oportunidade, a adaptação à nova cidade não foi fácil, e pouco tempo depois ele retornou a Passo Fundo, assumindo um cargo de direção operacional em uma das unidades do grupo.
Durante cerca de dez anos, Roberto acumulou experiência em diferentes áreas, do operacional ao financeiro, lidando diretamente com construtoras, obras e decisões estratégicas. Foi nesse período que ele identificou um gargalo importante do mercado: a dependência quase exclusiva de duas marcas de cimento, o que frequentemente gerava escassez e atrasos na construção civil.
A partir dessa percepção, surgiu a ideia de buscar uma terceira alternativa. Após encontrar e testar um novo fornecedor, Roberto começou a trazer cimento de fora do eixo tradicional, inicialmente para atender a demanda da concreteira. Em 1993, com apoio da família, alugou um pequeno pavilhão e iniciou a venda direta do produto. No fim daquele ano, nasceu oficialmente a JR Cimento — nome formado pelas iniciais de João, seu pai, e Roberto.
O início foi modesto, com cotas limitadas e crescimento gradual, mas a qualidade do produto e a credibilidade construída ao longo dos anos abriram portas. Aos poucos, a empresa ampliou o portfólio, passando a oferecer tijolos, areia, brita, tubos e outros insumos essenciais para a construção. Mais tarde, a entrada no mercado do aço marcou uma nova fase de expansão, levando a JR a se tornar uma das principais distribuidoras da ArcelorMittal na região por muitos anos.
Com o crescimento da demanda e a necessidade de diversificar fornecedores, a empresa também passou a importar materiais, antecipando tendências e buscando soluções fora do país. Esse movimento consolidou a JR como um grupo empresarial robusto, com atuação estratégica e visão de longo prazo.
Hoje, a JR vai muito além do cimento que deu origem ao nome, mas mantém a marca construída ao longo de mais de três décadas, fruto de investimentos constantes, credibilidade no mercado e forte presença na comunidade regional. Para Roberto Andretta, a base de tudo segue sendo a mesma: trabalho, disciplina e valores aprendidos ainda na infância. “As dificuldades do começo moldam quem a gente se torna. Nada veio fácil, e talvez seja por isso que a gente valorize tanto o que construiu”, concluiu.











