Estamos iniciando o mês de agosto. No Brasil é tradição, neste período, acentuar a reflexão e a oração com o foco nas vocações. É o tradicional mês vocacional que motiva, em cada domingo, rezar uma vocação específica a serviço da obra evangelizadora da Igreja. Neste primeiro domingo traz-se presente as vocações ao ministério ordenado nos três graus, diaconato, presbiterado e episcopado. Seguindo a Teologia dos Sacramentos, são dimensões assumidas para servir ao povo de Deus como bem lembra a primeira carta de Pedro: tomem conta do rebanho que lhes foi confiado cuidando dele, não por obrigação, mas de livre e boa vontade, como Deus quer; não por lucro vergonhoso, mas com generosidade; não como donos daqueles que lhes foram confiados, mas como modelos para o rebanho (1Pd 5,2-3).
A Liturgia da Palavra do 18º Domingo do Tempo Comum convida pela primeira leitura (Is 55,1-3) a compreender a gratuidade da vida humana e da sustentação da vida humana. Esta é o bem maior e está acima de qualquer outro valor. O texto de Isaias é uma resposta ao cansaço diante das humilhações e agruras do exílio. Só em Deus este povo encontraria a restauração e a gratuidade.
No Evangelho (Mt 14,13-21) Jesus avança na interação com o povo. Junto com o ensinamento através das parábolas e a sua presença orientadora, oferece algo mais, sinal do Reino anunciado. Logo após a morte de João Batista procura um lugar afastado junto com os discípulos. É possível que também tenham se sentido ameaçados pelo sistema econômico e político da época.
Entretanto, as pessoas queriam estar com Jesus. E Ele percebe esta grande necessidade. Continua agindo, agora oferecendo a cura aos que estavam doentes. Junto ao ensinamento oferece a cura. Vai aprofundando a comunhão com aquele povo. Os sinais do Reino anunciado se tornam mais intensos.
Até aqui o texto menciona Jesus e a multidão. Havia outro grupo, os discípulos. Ao final do dia estavam certamente cansados e incomodados com tanto trabalho. Pareceu-lhes fácil pedir a Jesus que despedisse a multidão para que se virasse por “própria conta e risco”. Disseram a Jesus: “este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida” (Mt 14, 15). Certamente eles já tinham comida e hospedagem garantida. Não queriam maiores incômodos e inconveniências. Estariam livres do problema sem maiores questionamentos. Nesta lógica, própria daquela sociedade e a qual os discípulos não conseguiam romper, só se alimentaria quem teria fundos para comprar. Bem diferente da lógica proposta pelo profeta Isaias na primeira leitura: vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite sem nenhuma paga (Is 55,1).
Mas Jesus os surpreendeu e lhes devolveu a responsabilidade. Fez do grupo também protagonista daquele encontro. Ele que estava ensinando e curando agora provocava a participação do discipulado no processo. Afirmou: “eles não precisam ir embora: dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16), o que no primeiro momento parecia impossível.
Contudo, Jesus foi aos poucos provocando a ação do discipulado e também da multidão, mostrando que era necessário fazer um processo. Do discipulado, quando pediu que averiguassem o que tinham e trouxessem a Ele; da multidão, apresentando o que tinham: cinco pães e dois peixes que somam sete, a totalidade. Ninguém precisava se mexer do lugar e “comprar” comida. Havia comida para todos.
Jesus provocou os discípulos a olhar para além de si e do seu grupo; olhar para a multidão que tinha fome; olhando a multidão que tinha fome conseguiram ver mais, o alimento a ser partilhado e que estava ali ao alcance de todos. Mas como aconteceu a partilha?
Aconteceu pelo reconhecimento da dignidade de cada um dos presentes, simbolizada primeiramente na atitude de sentarem para comer. Naquele tempo somente os senhores e patrões comiam sentados. Sentar para comer era atitude de pessoas livres e providas de dignidade, que o Mestre estava restituindo. Ali todos puderam sentar sem distinção. O reconhecimento vem também pelo fato de compreender que o alimento é dom de Deus, logo não poderia ser acumulado por uma minoria.
Em seguida, Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Foi o segundo ato. Com isso reforça a ideia de que o alimento é dom de Deus e deve ser disposto gratuitamente para todos. A partilha é o prolongamento da gratuidade iniciada pelo Pai. Em seguida, no terceiro ato, Jesus partiu o alimento e deu aos discípulos que por sua vez deram às multidões. O fato deles participarem daquele momento contém uma iniciativa pedagógica, sobretudo porque queriam se desvencilhar do problema e despedir as multidões. Jesus os faz participantes de um exercício profundamente catequético, a partilha do alimento.
Segundo o texto, todos comeram e ficaram satisfeitos e ainda sobrou alimento. Aconteceu a sobra porque houve um processo. Jesus não fugiu do problema, tampouco, resolveu a situação da fome de uma forma mágica, Provocou um processo, uma experiência no discipulado e na multidão, a experiência da partilha. Aconteceu um quarto ato. Jesus pediu que recolhessem as sobras. O alimento, dom de Deus, disposto gratuitamente e partilhado não poderia ser desperdiçado.
Recolheram-se doze cestos cheios. A partilha é verdadeiramente um milagre.
Pe. Ari Antonio dos Reis











