“Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus”. É observado, mas também ele observa o comportamento dos convidados. Por causa disso, cria-se um ambiente favorável para ensinar sobre a humildade, através de uma parábola. (Eclesiástico 3,19-21.30-31; Salmo 67, Hebreus 12,18.19-22-24 e Lucas 14, 1.7-14). Aparentemente a parábola dá a entender que Jesus trata de normas de etiqueta à mesa. Porém, como observador atento e pregador concreto e vivaz, parte de pequenos fatos e gestos do cotidiano para construir a sua mensagem. O objetivo da parábola é conduzir os ouvintes às normas para assentar-se à mesa do Reino dos Céus. “Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”.
O que é a humildade? É um termo que se presta a muitas ambiguidades, tanto na linguagem espiritual, religiosa e social. O caminho mais seguro para falar de humildade cristã é partir de Jesus Cristo. Ele mesmo se auto define: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois meu jugo é suave e o meu peso é leve” (Mt 11,29-30). Nestes versículos, Jesus faz um convite, chama e promete. Sente-se autorizado para fazer isto por portar as qualidades de ser “manso e humilde de coração”. Ele se apresenta como garantia para os convidados. Todos os ensinamentos e o comportamentos de Jesus, nas mais diversas situações, são luz para dirimir as ambiguidades conceituais e vivenciais sobre a humildade.
“Em Jesus Cristo e de Jesus Cristo nasce o homem de coração manso e humilde e aprende a ser manso e humilde de coração. Jesus Cristo, que é a fonte da humildade, constitui também seu paradoxo e seu escândalo. Ele é para o homem soberbo a pedra rejeitada (Mt 21,42), sinal de contradição (Lc 2,34) e pedra de toque. Quem aceita encontra com ele a redenção e a liberdade, ao passo que quem o rejeita vive a angústia negativa (At 26,14). Jesus Cristo é a prova suprema que o homem deve superar para tornar-se e manter-se humilde. Aprender a viver como homem salvo significa escutá-lo e seguir sua doutrina” (D. Mongillo).
Jesus é humilde e ensina o caminho da humildade. Ele faz compreender que a humildade é a justa compreensão de si mesmo para ocupar o lugar próprio na história. Antes de ser uma série de atitudes é modo de ser e de relacionar-se. Caracteriza o homem no modo de avaliar e aceitar a si mesmo e na posição que adota no mundo e diante de Deus. É dimensão antropológica, e configura-se segundo a orientação de quem a vive e o contexto em que se acha inserido. Ela qualifica o homem nas relações que constrói. É um estilo de vida que se expressa no reconhecimento da dignidade humana na própria pessoa, em si mesmo e nos outros, e que cresce em comunhão com Jesus Cristo. É caminho da afirmação de talentos. Humildade é solidariedade a ser construída pelo caminho longo e paciente do convencer-se, afastando as tentações da coação, da manipulação, orgulho e da autossuficiência. A humildade cresce com o risco das realizações e das opções, não esquece o limite e a precariedade, mas combate o fatalismo.
Os versículos do Eclesiástico são muitos sugestivos e concretos: “Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso. Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. […] Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende. O homem inteligente reflete sobre as palavras dos sábios, e com ouvido atento deseja a sabedoria”.
Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo