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Lei e Evangelho

Dom Rodolfo Luís Weber - Arcebispo de Passo Fundo

Depois de ensinar o caminho da vida bem-aventurada ou feliz, Jesus afirma que identidade do discípulo é ser sal da terra e luz do mundo. Na sequência, usando seis antíteses ou antinomias, esclarece o ensinamento das bem-aventuranças: “Vós ouvistes que foi dito … Eu, porém, vos digo”. Aprofunda o tema refletindo sobre o homicídio, adultério, divórcio, juramento, vingança e amor aos inimigos. São seis temas, mas a título de exemplo (Eclesiástico 15,16-21, Salmo 118,1 Coríntios 2,6-10 e Mateus 5,17-37).

Os ouvintes de Jesus, num primeiro momento, entenderam que ele estava abolindo os ensinamentos passados, mas ele deixa bem claro: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento”. Esclarece que não está contrapondo a Lei ou a Torá ao Evangelho, mas trazer à luz a profundidade e a verdade contida na Torá. Pois, a Palavra de Deus é a mesma para todos os humanos e de todos os tempos. O que é preciso fazer sempre, é remover o que obscurece e desvirtua a Escritura.

O modo de viver de Jesus revelava um homem livre e extremamente responsável. É o tema do livro do Eclesiástico e deve ser o modo de viver do discípulo: livre e responsável. “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás. Diante de ti, ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. Diante do homem, estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir. […] Não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar”.

A pessoa responsável não se esconde atrás de situações, coisas ou pessoas, mas assume o peso das decisões. O autêntico fiel sabe conjugar Lei e Evangelho, obediência a Deus e liberdade. Categorias que não se opõe, nem são paralelas, mas se compenetram e se reclamam. “A obediência sem liberdade é escravidão, a liberdade sem obediência é arbitrariedade. A obediência ensina ao homem que ele deve deixar-se dizer, que coisa é boa e que coisa Deus quer dele, a liberdade permite o homem criar ele mesmo o bem. A obediência sabe que coisa é boa e o faz, a liberdade ousa agir e deixa a Deus o juízo sobre o bem e o sobre o mal” (Bohnhoeffer).

Portanto, é na conjugação de obediência à Lei e liberdade que o homem se torna responsável. É o chamado dirigido a cada fiel. Nos exemplos de Jesus, em forma de antíteses ou antinomias, mostra que o discípulo não pode fechar-se na “letra” do mandamento, por isso destaca dois elementos substanciais. Jesus afirma que o quinto mandamento “não matar” vai muito além de assassinar o irmão. Não matar não se resume ao fato objetivo de matar o corpo. “Todo aquele que odeia seu irmão, é homicida” (1 Jo 3,15). Todas as palavras, gestos violentos que fazem sofrer o próximo estão dentro do mandamento não matar. Pede do discípulo “algo mais” que não está totalmente expresso, pois nenhuma lei consegue prever todas as variantes. O discípulo deve questionar-se sobre a profundidade da lei.

O segundo elemento fundamental é que Jesus coloca o pecado no coração do homem. Na mentalidade bíblica o coração é o centro das decisões e das escolhas. Jesus desloca a lei do plano social e jurídico e a coloca na intencionalidade e da projeção. A intenção já é projeto e, portanto, decisão. O plano jurídico e social não representa o contexto último e definitivo da responsabilidade diante de Deus e diante dos homens. A escolha definitiva é posta na decisão no coração.

A mesma radicalidade Jesus expressa também nas palavras: “Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não”. Tudo o que for além disso vem do Maligno”. É preferível o sim e o não ao juramento. Jesus pede simplicidade na vivência fé. Autenticidade e responsabilidade em cada palavra e em cada gesto diante de Deus geram credibilidade e transparência.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo

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