Quase dois anos após os primeiros eventos climáticos extremos que devastaram o Vale do Taquari, o que deveria ser uma solução emergencial tornou-se a face permanente da espera. Em Encantado, a entrega de 35 casas provisórias (módulos habitacionais) é o único avanço concreto para uma comunidade que ainda abriga cerca de 72 famílias em situação de vulnerabilidade.
Instalados em 19 de agosto de 2024 — cerca de três meses após a enchente histórica de maio daquele ano — os módulos habitacionais transportáveis seguem como o único teto para dezenas de pessoas. Com apenas 27 m², as unidades são equipadas com mobiliário básico e eletrodomésticos, mas foram projetadas para serem uma transição rápida, não uma moradia de longo prazo.

Para quem vive ali, a contagem dos dias é acompanhada pela incerteza sobre as 2.500 unidades habitacionais prometidas pelos governos Federal e Estadual para a região. Embora o programa de “Compra Assistida” tenha contemplado algumas famílias, o fluxo de retorno de pessoas que não conseguiram se manter fora da área de risco mantém o contingente de desabrigados elevado.
Além da precariedade habitacional, os moradores enfrentam uma barreira invisível, mas devastadora: o preconceito no mercado de trabalho. Clair Pereira, morador local que perdeu as ferramentas de trabalho como pedreiro na enchente de 2023 e tentou se reinventar como caminhoneiro em 2024, em entrevista à Rádio Planalto News ele relatou uma realidade comum entre seus vizinhos.
“No momento que eu dizia onde eu morava, nem telefone hoje não responde mais”, lamenta Clair.
Ele relata ter procurado cinco empresas recentemente; em todas, as portas se fecharam ou o contato cessou após a confirmação de sua residência. O relato expõe uma face cruel da tragédia: após perderem bens materiais e empregos para a força das águas, os sobreviventes agora lutam contra o estigma de morarem em áreas atingidas ou em abrigos temporários.
Confira abaixo a entrevista:











