Compreender como as crianças se apropriam da linguagem e constroem sentidos ao narrar histórias é o objetivo central do projeto “Estudo multimodal da narração de crianças brasileiras e francesas”, iniciativa coordenada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e contemplada por edital conjunto promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior – Capes (Brasil) e pelo Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil – Cofecub (França), uma das mais importantes ações de cooperação científica entre Brasil e França.
A pesquisa, que já está em desenvolvimento, reúne especialistas de instituições brasileiras e francesas para analisar narrativas produzidas por crianças, observando não apenas as palavras utilizadas, mas também elementos como prosódia, gestos e interação social. A proposta busca compreender de que forma esses diferentes aspectos da comunicação participam do processo de aquisição da língua materna. Com investimento superior a R$ 1,6 milhão, o projeto prevê a concessão de oito bolsas de estudo em níveis de doutorado, pós-doutorado e professor visitante. Os recursos também apoiarão missões de trabalho entre Brasil e França e as atividades necessárias para o desenvolvimento da pesquisa ao longo dos próximos quatro anos.
Segundo a coordenadora do projeto da UPF, professora Marlete Sandra Diedrich, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL/UPF), o estudo nasce de uma trajetória consolidada de pesquisas na Universidade sobre aquisição da linguagem e também do trabalho desenvolvido pela pesquisadora francesa Christelle Dodane. “Entendemos que estudar as narrativas das crianças, a partir de corpora de crianças brasileiras e francesas, pode revelar elementos importantes sobre como a criança se instaura na sua língua materna e estabelece relações na sua interação com os outros de seu convívio. Afinal, narrar é uma atividade humana que se manifesta em praticamente todas as culturas das quais se têm conhecimento no mundo. Logo, entender mais, por meio de estudos científicos, do processo por meio do qual a criança narra, é tarefa que se impõe aos estudiosos da aquisição da linguagem”, explica.
Linguagem em perspectiva multimodal
Linguagem em perspectiva multimodal
Ao longo dos próximos quatro anos, a equipe buscará responder a uma principal questão: “Como se dão as relações de sentido entre palavra, prosódia e gestualidade, no ato de narrar das crianças, à luz de uma matriz multimodal de aquisição da linguagem”. Para isso também serão levadas em considerações questão como o modo como a criança mobiliza os elementos da matriz multimodal de aquisição da linguagem para narrar eventos em situação de fala solitária, na ausência de um interlocutor; e em situação de fala em contexto social, na presença de um ou mais interlocutores, além de quais modos de funcionamento da linguagem podem indicar sobre a trajetória da criança na aquisição de sua língua materna (francesa e portuguesa).
Conforme a professora Marlete, a pesquisa poderá contribuir para os estudos em Aquisição da Linguagem, a partir de um olhar pautado nas teorias da linguagem propostas, em especial, com foco na multimodalidade da linguagem. Ao lançar luz sobre a relação da criança com a língua e com os processos de interação social, o estudo pretende subsidiar futuras pesquisas e práticas educacionais voltadas à infância. “Certamente conhecer mais sobre a linguagem da criança é conhecer mais sobre a linguagem humana em seu status nascendi, o que favorece o conhecimento da própria natureza humana”, pontua.
Cooperação internacional consolidada
De acordo com a professora, a parceria entre pesquisadores brasileiros e franceses é resultado de uma longa trajetória de colaboração acadêmica. Entre as experiências anteriores, Marlete cita a exposição itinerante “A criança na língua: passo a passo / L’enfant dans la langue: pas à pas”, realizada desde 2016 nos dois países, além de projetos vinculados à Université Sorbonne Nouvelle e à UNESP. Essas iniciativas contribuíram para fortalecer vínculos científicos que agora se consolidam no projeto aprovado pelo Capes-Cofecub.
De acordo com a professora, a parceria entre pesquisadores brasileiros e franceses é resultado de uma longa trajetória de colaboração acadêmica. Entre as experiências anteriores, Marlete cita a exposição itinerante “A criança na língua: passo a passo / L’enfant dans la langue: pas à pas”, realizada desde 2016 nos dois países, além de projetos vinculados à Université Sorbonne Nouvelle e à UNESP. Essas iniciativas contribuíram para fortalecer vínculos científicos que agora se consolidam no projeto aprovado pelo Capes-Cofecub.
Na prática, o trabalho conjunto aprovado em edital de 2025, envolve ações como missões de estudo – iniciadas com a ida da professora Marlete à França em maio de 2026 – análise compartilhada de dados, realização de seminários interinstitucionais e produção científica em coautoria, fortalecendo a representação e prática da pesquisa como atividade colaborativa, interativa e em rede. O intercâmbio de pesquisadores, doutorandos e pós-doutorandos também integra a metodologia do projeto, fortalecendo a inovação e a internacionalização das pesquisas desenvolvidas, assim como a democratização dos resultados da pesquisa, com a promoção de ações extensionistas abertas à comunidade em geral.
Para além de todas essas ações, a professora ressalta que um dos principais impactos da iniciativa será a formação de recursos humanos qualificados. Estudantes de mestrado e doutorado da UPF participarão diretamente das pesquisas e terão acesso a oportunidades de mobilidade internacional. Alguns deles poderão realizar períodos de estudos na França, sob coorientação de pesquisadoras francesas, enquanto a comunidade acadêmica do PPGL também será beneficiada pela realização de conferências, seminários e atividades formativas conduzidas por pesquisadores visitantes.
Na visão da professora Marlete, o trabalho de pesquisa sempre é mais frutífero quando se estabelecem redes de cooperação. “No caso desse projeto em específico, essas redes contam com um saber consolidado em anos de experiência dos pesquisadores participantes, sendo que muitos deles representam verdadeiras referências na área da Aquisição da Linguagem, tanto no Brasil como na França”, conta. Assim, para ela, contar com a presença desses pesquisadores no PPGL e com a possibilidade de diálogo aberto com suas pesquisas certamente representa impacto no modo de se fazer pesquisa no Programa da UPF.











