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Transfiguração

Dom Rodolfo Luís Weber - Arcebispo de Passo Fundo

 A transfiguração é a passagem do caminho da morte para o caminho da vida. É a marca do itinerário quaresmal e toda a vida cristã. Jesus está indo ao sofrimento da cruz, mas antes proporciona a Pedro, Tiago e João uma experiência luminosa, de vitória e glória. A última palavra não será da morte, mas da vida, da ressurreição. Todos os que caminham com o mestre, escutam a sua voz experimentarão a vitória e a transfiguração da vida (Gênesis 12,1-4, Salmo 32, 2 Timóteo 1,8-10 e Mateus 17,1-9).

Jesus toma consigo três apóstolos e os leva a “uma alta montanha” para testemunharem um acontecimento privilegiado, denominado de transfiguração. Estavam habituados a ver o rosto humano de Jesus e agora o experimentam além do humano. Segundo o evangelista, “o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz”. Pedro, Tiago e João experimentam uma manifestação divina. 

Deus tem um rosto. Como seria Deus e o homem sem rosto?  O salmista reza: “Meu coração me lembra do teu apelo: “Buscai a minha face”. Sim, a tua face, Senhor, eu busco. Não afasteis de mim o teu rosto” (Sl 27,8-9). Deus mostra seu rosto, se aproxima e estabelece uma relação autêntica e plena com os humanos. Na transfiguração Jesus revela o rosto de Deus e o rosto do homem, o mistério divino e o humano. As testemunhas compreendem agora a quem estão seguindo e qual a meta final do seguimento. 

O homem vai a Deus na sua solidão e nas suas necessidades, com o rosto marcado pelo tempo e sofrimento. Deus transforma este caminho de solidão em caminho de vida. Assim como o caminho de Jesus, a estrada do homem, por mais sofrida que seja, vem transfigurada à imagem de Deus que chama à vida. Se Jesus, um dia, quis mostrar o rosto de Deus, isto significa que o homem não está mais sozinho na estrada da vida. A experiência da viver naquele ambiente divino, faz Pedro exclamar: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas”. Ele expressa o que todos os humanos desejam e sentem. É melhor viver um presente extremamente gratificante, do que carregar um passado de dificuldades ou lançar-se num futuro incerto. As palavras de Pedro revelam o sentir e o pensar humano. Ainda não tinha compreendido a experiência que Jesus estava lhes proporcionando. A transfiguração é um fato divino e se compreende somente se Deus oferece a chave da sua compreensão. “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.

Esta grandiosa cena chega ao ápice quando se forma “uma nuvem luminosa” e ressoa “uma voz”. “Este é o meu filho amado, no qual pus todo meu agrado. Escutai-o!” Ao mesmo tempo que a nuvem oculta, também resplandece. Manifesta Deus presente, sem revelar o mistério. Ela envolve os três apóstolos colocando-os dentro do mistério de Deus. Agora eles têm a possibilidade de ouvir a voz divina, que simplesmente diz: “Escutai-o!”

Escutar é um ato de obediência e seguimento. Aos discípulos se pede uma confiança incondicionada em Jesus. Escutar deve levar o discípulo onde Jesus vai, sem reservas e sem resistências. É acompanhar Jesus na estrada que vai em direção de Jerusalém, onde será submetido aos torturadores

Depois da escuta vem a resposta. Somente agora a resposta é legítima e frutuosa. Abrão é um exemplo corajoso de escuta e acolhida do que Deus lhe propõe como ensina a leitura do livro do Gênesis. Deus diz a Abrão sair da sua terra, promete a formação de um povo e a seguir as promessas se realizam. A iniciativa é de Deus que pede uma mudança radical para Abrão: sair da terra, deixar a casa dos pais e familiares e se dirigir a terra indicada e não a terra desejada. A proposta de Deus é exigente, mas não é um pulo no escuro. Deus exige muito, mas é capaz de assegurar um bem que envolve toda pessoa de Abrão, seus descendentes e todas as famílias da terra. Por causa disso, Abrão se torna um modelo exemplar de todos os que creem na Palavra de Deus. Abrão parte. Faz do projeto divino o seu projeto e se submete àquela palavra dura, mas capaz de assegurar vida e prosperidade. A escuta se faz obediência e a obediência é premissa de ricas bênçãos.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo

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