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“Vivei como filhos da luz!”

Dom Rodolfo Luís Weber - Arcebispo de Passo Fundo

“Ó Deus, que por vossa Palavra realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé”, reza a Igreja no quarto domingo da Quaresma. Uma parte do caminho quaresmal já foi percorrido e a Páscoa vai se aproximando. É um caminho de oração, de caridade, de penitência, de reconciliação e escuta da Palavra de Deus que resulta em alegria a quem o percorre, pois, o dia da vitória de Cristo sobre a morte está mais próximo.

A cura de um cego de nascença se torna oportunidade para que Jesus se apresente como “a luz do mundo”. Luz que dissipa as trevas e faz ver além das aparências (1 Samuel 16,1.6-7.10-13, Salmo 22, Efésios 5,8-14 e João 9,1-41). Esta luz se propaga através dos diálogos que Deus estabelece com Samuel, de Jesus com o cego curado e os questionamentos dos fariseus, dos vizinhos em relação com o que aconteceu com o cego e quem o curou.

O profeta Samuel recebe a missão de ungir o rei escolhido entre os filhos de Jessé de Belém. O profeta já experimentado pela idade e pela vida raciocina ainda segundo os critérios humanos considerando aparência, força física, habilidade verbal. Deus o adverte dizendo: “Não julgo segundo critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”. O coração, na concepção bíblica, é o centro das decisões humanas. Lá são articuladas as ações, lá são cultivados os sentimentos, lá se escuta Deus. Samuel deixa-se iluminar e por isso unge Davi, o escolhido por Deus.

Após o breve relato de como foi a cura do cego, inicia-se um frutuoso e revelador diálogo. Os “vizinhos e os que costumavam ver o cego” constatam a cura, perguntam como aconteceu, mas não vão além. Se contentam com a curiosidade. Os fariseus interrogam o cego e seus pais, mas não creem em quem fez o milagre da cura. Sentem-se autossuficientes e autorizados a julgar e desprezar os outros. Creem que possuem a verdade e não tem mais nada a aprender, muito menos de um cego. A discussão com o curado termina com a sentença condenatória: “Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?”

Os pais do cego creem em Jesus Cristo, mas não dão testemunho. Diante do medo, passam a responsabilidade para o filho porque “é maior de idade”. Representam tantas pessoas sensíveis, de bons sentimentos, mas sem coragem. Por fim, o cego e Jesus se reencontram: o curado se prostra e exclama: “Eu creio, Senhor!”

A carta aos Efésios diz com clareza como Cristo, a “luz do mundo” deseja que seus filhos vivam iluminados pela graça recebida da Santíssima Trindade no batismo: “Irmãos, outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade. Discerni o que agrada ao Senhor. Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as. O que esta gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. Mas tudo que é condenável torna-se manifesto pela luz; e tudo o que é manifesto é luz. É por isso que se diz: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá”. Usando o recurso de contrapor luz e trevas, isto é, conduta cristã e pagã, justiça e pecado, Paulo exorta para a dimensão moral dos cristãos a caminharem como filhos da luz. Os frutos da luz chamam-se: bondade, justiça e verdade.

A cura do cego é convite para deixar-se curar de todas as formas de cegueira, seja pessoal ou comunitária. Jesus veio “para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos”. Livres das cegueiras podemos orientar a vida com critérios divinos, não pelas aparências, mas pelo que está no coração.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo

 

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