A correria do dia a dia, os compromissos, as preocupações e a rotina acabam fazendo com que, muitas vezes, a gente passe pelas pessoas sem perceber o que existe por trás de cada história.
A cidade está em constante movimento. Carros passam cada vez mais rápido, pessoas seguem seus caminhos, compromissos precisam ser cumpridos e a vida não para. Mas, em meio a toda essa pressa, existem homens e mulheres que lutam diariamente, talvez muito mais do que nós, para viver. Para sobreviver.
Hoje foi um desses dias.
Um daqueles dias em que Deus me fez parar por alguns minutos para admirar a vida e perceber que, muitas vezes, aquilo que temos pode ser muito mais valioso do que imaginamos. Foi o dia em que conheci o Paulo.
Paulo Ricardo Rodrigues de Camargo, conhecido no bairro São Luiz Gonzaga como “Velho”, é morador de Passo Fundo, assim como eu.
Eu o encontrei enquanto seguia pela rua Parobé, no bairro Entre Rios, para mais um compromisso.
Ele seguia com extrema dificuldade, puxando uma pequena carroça onde carregava materiais recicláveis. Usava duas muletas para conseguir se locomover e estava com uma das pernas enfaixada.

Parei. Conversei com Paulo, talvez como poucas pessoas tenham parado para fazer naquele momento, e consegui entender um pouco do que estava acontecendo.
Paulo me contou que havia sido mordido por cachorros e que, por conta disso, teve a perna ferida.
Mesmo com a perna enfaixada, mesmo com dificuldade para caminhar e precisando das duas muletas para se locomover, Paulo entendeu que precisava sair de casa.
Com sua pequena carroça, suas muletas e suas limitações, Paulo seguiu por toda a extensão da rua Parobé, em direção a uma reciclagem, tentando chegar ao local onde poderia vender os poucos materiais que havia conseguido recolher.
A nossa vida, às vezes, nos faz passar pelas pessoas sem conseguir enxergá-las. A gente olha, mas não vê. A gente escuta, mas não ouve.
Segue correndo atrás dos nossos próprios problemas e acaba esquecendo que, ao nosso lado, existem pessoas enfrentando batalhas que sequer conhecemos.
A história do Paulo me fez pensar muito sobre isso.
Não estou aqui para fazer julgamentos. Não estou aqui para apontar dedos ou tentar explicar por que Paulo chegou à situação em que se encontra. Não conheço toda a sua história e não seria justo fazer qualquer julgamento a partir de alguns minutos de conversa.
Mas uma coisa eu pude perceber.
A vida, muitas vezes, passa diante dos nossos olhos e a gente nem percebe.
Enquanto reclamamos de tantas coisas, existem pessoas que estão lutando simplesmente para conseguir seguir em frente.
Enquanto reclamamos da correria, existem pessoas que enfrentam a própria dificuldade de caminhar para tentar colocar comida dentro de casa.
Enquanto seguimos olhando para o relógio, para o trânsito e para os nossos compromissos, talvez exista alguém ao nosso lado vivendo uma batalha que nós sequer imaginamos.
Hoje, Paulo me fez parar, me fez olhar e me fez ouvir. Os passos lentos me fizeram valorizar um pouco mais aquilo que tenho.
Talvez a grande lição desse encontro não esteja apenas na história de Paulo, mas naquilo que a história dele despertou em mim.
Que a gente nunca fique tão ocupado tentando chegar ao nosso destino a ponto de esquecer de olhar para quem está caminhando ao nosso lado.
Porque, no fim, talvez seja justamente isso que ainda nos torna seres humanos.
Texto: Jeferson Vargas











