A produção de leite de ovelha, ainda pouco conhecida por grande parte dos consumidores gaúchos, vem conquistando espaço no Rio Grande do Sul. Uma das iniciativas que aposta nesse mercado é a Ovelha Arteira, de Picada Café, que participou pela primeira vez da Expointer apresentando produtos elaborados a partir do leite de ovinos.
Durante a 49ª Expointer, a Rádio Planalto conversou com a produtora Kátia Michaelsen, responsável pela propriedade. Ela contou que a família começou a criação de ovinos em 2020, durante a pandemia. Até então, nenhum dos dois tinha experiência profissional ligada ao agronegócio. Kátia é formada em Relações Públicas e trabalhava em uma cooperativa de crédito, enquanto o marido atua como designer gráfico.
A propriedade da família possui uma área considerada pequena, que inicialmente era utilizada principalmente como jardim. Durante a pandemia, surgiu a ideia de aproveitar melhor o espaço. A intenção inicial era trabalhar com ovelhas destinadas à produção de carne, mas o contato com a raça Lacaune mudou os planos.
“Nos encantamos pela raça, nos encantamos pelos produtos que são possíveis de produzir a partir do leite”, contou Kátia durante a entrevista.
A Lacaune é uma raça de origem francesa, especializada na produção de leite, embora também apresente dupla aptidão para a produção de carne. Segundo a produtora, a criação começou em 2020 e ganhou uma nova dimensão em 2024, quando a família adquiriu um lote maior de animais. A partir de um plantel de aproximadamente 60 a 65 ovelhas, foi possível avançar para a estrutura de produção e beneficiamento do leite.
Em 2026, a família iniciou efetivamente a produção e também passou a trabalhar com uma agroindústria própria para o beneficiamento. A empresa recebeu a certificação em abril deste ano, permitindo a comercialização dos produtos e a participação na Expointer.
Produção de leite
Uma das principais diferenças entre as ovelhas leiteiras e os animais criados tradicionalmente para carne ou lã está justamente no período de produção. Kátia explica que outras ovelhas também produzem leite, naturalmente, para alimentar os cordeiros, mas a produção ocorre por um período mais curto.
Já a ovelha especializada para leite continua produzindo depois desse período. Conforme a produtora, em um pico de lactação, uma ovelha Lacaune pode produzir entre um litro e meio e dois litros de leite por dia, mantendo a produção durante seis, sete ou até oito meses.
A ordenha também é mecanizada e apresenta algumas diferenças em relação à realizada com vacas. Enquanto os equipamentos utilizados na bovinocultura possuem quatro teteiras, a ordenhadeira utilizada pelas ovelhas trabalha com duas, adaptadas ao tamanho dos animais.
Segundo Kátia, a raça Lacaune apresenta um úbere bem desenvolvido, mas com tetos menores, o que exige equipamentos adequados para realizar a retirada do leite.
Diversificação de produtos
O leite produzido pelas ovelhas pode ser utilizado na fabricação de uma grande variedade de alimentos. Na Ovelha Arteira, a produção inclui queijos frescos, queijos maturados, iogurtes e doce de leite.
Um dos destaques apresentados na Expointer é o queijo Boursin, tradicionalmente associado à produção com leite de cabra, mas que foi adaptado pela propriedade para utilização do leite de ovelha.
A produtora também destaca as características do leite utilizado na fabricação dos produtos. Segundo ela, a produção da propriedade é de leite A2, característica que faz com que alguns consumidores que relatam sensibilidade ao leite procurem alternativas produzidas com leite de ovelha.
Valor agregado e manejo
Além da possibilidade de diversificação da propriedade, a atividade também apresenta potencial de agregação de valor. Kátia explica que o litro do leite de ovelha possui um valor de mercado superior ao leite bovino, sendo comercializado, segundo sua experiência, na faixa de 10 a 12 reais por litro para beneficiamento.
Outro ponto destacado é o tamanho dos animais. Por ser um ruminante de menor porte, a ovelha exige menos alimento do que uma vaca leiteira e pode apresentar maior facilidade de manejo em propriedades com espaço reduzido.
A produtora explica, no entanto, que a atividade também possui custos e exige cuidados específicos, principalmente relacionados à saúde dos animais. A criação em confinamento é utilizada por muitos produtores justamente para facilitar o controle de questões como verminoses, desde que sejam garantidas condições adequadas de espaço e bem-estar.
Apesar de produzir um volume menor de leite individualmente, a composição do leite de ovelha favorece a fabricação de derivados. Kátia cita como exemplo a produção de queijo: são necessários aproximadamente quatro a cinco litros de leite de ovelha para produzir um quilo de queijo, enquanto no leite bovino a quantidade pode ficar entre oito e dez litros.
Uma família que trocou o mundo corporativo pelo campo
A história da Ovelha Arteira também representa uma mudança de trajetória profissional. No início do projeto, a atividade era uma alternativa para aproveitar o espaço disponível na propriedade. Com o crescimento da produção, porém, o negócio passou a ocupar um papel cada vez maior na vida da família.
Neste ano, Kátia decidiu deixar o trabalho no mundo corporativo para se dedicar exclusivamente ao agronegócio e à produção de ovinos leiteiros. O marido ainda divide o trabalho entre a atividade rural e a empresa onde atua, mas, segundo ela, também está cada vez mais envolvido com o projeto.
Atualmente, a propriedade possui aproximadamente 90 ovelhas. O plantel está em período de parição, fazendo com que o número de animais aumente gradualmente. No momento da entrevista, 16 ovelhas estavam em lactação.
Primeira participação na Expointer
A presença na Expointer representa um momento importante para a Ovelha Arteira. Em 2026, pela primeira vez, a empresa levou seus produtos à maior feira agropecuária do Rio Grande do Sul.
Para Kátia, a participação também ajuda a divulgar uma atividade que ainda não possui a mesma visibilidade da ovinocultura tradicional voltada para carne e lã.
A produtora avalia que o interesse pela ovinocultura leiteira vem crescendo no Estado e que a feira é uma oportunidade para apresentar ao público tanto os animais quanto os produtos que podem ser desenvolvidos a partir do leite.











